Por Pashupati Alex

Ontem um amigo disse que muita escuridão está vindo à tona no mundo. Concordo, o mundo é um lugar que ainda precisa de muita reforma, muito conserto, muita luz, mas nunca esteve tão bem. Parece mentira, mas o mundo nunca esteve num momento melhor para se viver. Simples assim. Com tanta guerra e fome, tantas injustiças e violência acontecendo, sim muitas ainda e de repente, nem parece que evoluímos tanto. Mas quem preferiria estar numa época antiga? Talvez queimada na fogueira? Talvez escravizado? Quem sabe preso e assassinado injustamente? Talvez morrendo ou simplesmente sofrendo com uma doença pela falta de um remédio efetivo?
Hoje não se pode confiar na mídia em geral, mas antigamente nem mídia existia. Hoje nos assustamos com a violência, mas é provável que em outros tempos, aquilo que agora nos assusta, e com razão, fosse absolutamente normal e ninguém se importasse. Hoje nos assustamos com mal tratos as crianças, mas há pouco tempo elas nem “existiam”. Sim, por incrível que pareça, o mundo nunca esteve melhor. Hoje todo mundo vigia todo mundo, todo mundo tem um celular pronto a te filmar, e isso pode salvar sua vida. Muito ainda precisa ser feito, mas muito já mudou. Olhar o mundo hoje ainda pode ser assustador, mas olhar para certas épocas e fatos históricos pode parecer um filme de terror totalmente fantasioso, do tipo: “Isso nunca aconteceria na vida real” ou o pior, o descuido e desleixo em afirmar que “isso nunca mais vai acontecer”, disso não tenho certeza, é preciso que cuidemos.
Nada disso eu falei ao meu amigo ontem, só pensei. E hoje, por algum motivo que desconheço conscientemente, fui a Catedral da Sé, sim, sendo eu, isso é totalmente esquisito, estranho.
Era meio da tarde e estava cheia. Não sabia por que havia tanta gente ali naquele horário. Logo começou uma celebração em homenagem aos professores. E o que julgo ser o padre, chamou a frente um representante de cada religião. Um rabino, um pastor, um monge zen budista e uma sacerdotisa do candomblé. Ele anunciou também um espirita e um representante do islã, mas eles não apareceram.
Meu olhar era de total descrédito, algo totalmente novo para mim; olhar para frente e ver o representante de cada religião, ali sentado, com respeito e disponível. Cada um foi convidado a discursar em homenagem aos professores, cada discurso separado por hinos do coral, e perdoem o lugar comum, de anjos. Se tivesse de ficar com uma só coisa que aprendi com Nietzsche é que “a vida sem música seria um erro”. Eu senti por que cantamos, ato absurdo, cantar. Por que o homem canta e faz música? Porque ele não se aguenta em si, porque algo transborda, mas creio eu, principalmente, para nos conectar a Deus, ao Cosmos, ao Universo. Cantamos e fazemos música para Deus, e cantamos em coro para nos elevarmos acima de nós mesmos e chegar bem perto das estrelas com a voz. Cantamos por que a voz, nos tempos antigos era o que sabíamos que podia escalar o ar e penetrar as nuvens. Não é quem canta seus males espanta, mas quem canta se aproxima do Divino.
Voltando. Cada discurso me levou a lembrança dos velhos mestres. Dos primeiros professores que me ensinaram, que amei e nunca esqueci. A primeira não conta, essa é de casa, era minha tia, já a amava antes e ainda amo. Mas existem aqueles, que só dividiram um ano comigo e nunca mais saíram da memória. Esses com certeza ensinaram bem mais do que o português ou matemática, talvez esses eu possa chamar de mestres. O professor ensina matemática, mas aquele que vai além, que ensina a pensar, a ver as coisas e a vida, que ensina a sentir, de um jeito ou de outro, esses são mestres. Alguns eu nem sei por que ainda me lembro, mas sei que algum motivo tenho.
Assim fui viajando nos discursos e nos hinos. Mas não tirava os olhos da mãe de santo, sentada imponente, mas relaxada, vestida como pede sua tradição. Era uma senhora negra, gorda, absolutamente bela.
E finalmente chegou o momento da sua fala. Sua voz era macia e poderosa, calma e presente. Sua presença tranquila e radiante. Eu não lembro seu discurso exatamente, mas ela pedia respeito ao seu povo, a sua cultura, aos seus ancestrais (por que não nossos?), ela pedia que falassem da sua religião, como parte da cultura afro, quando ensinassem a história do seu povo, do seu lugar, nas escolas.
Eu só posso dizer que mesmo estando totalmente acordado, consciente, parecia que era um sonho. Eu estava vendo uma mulher falando no altar da igreja católica. Eu estava vendo uma negra falando no altar da igreja católica. Eu estava vendo uma sacerdotisa do candomblé, vestida como quer sua religião, falando no altar da igreja católica para uma centena de pessoas. Eu ouvi essa mulher clamar elevando sua voz nesse momento, com força e com honra, o nome dos seus orixás Oxalá e etc no altar da igreja católica. Eu vi uma mulher negra de outra religião ser aplaudida na igreja católica. Eu vi uma mulher na igreja católica ser aplaudida e não queimada, eu vi uma mulher viva no altar da igreja católica e não uma estátua. Eu vi uma mãe de santo ser aplaudida e reverenciada por um padre, um rabino, um pastor e um monge zen budista. Eu ouvi e vi o discurso de uma mulher ser o único a ser aplaudido e ovacionado.
Eu sei que é pouco ainda. Mas eu sei que uma solução estava ali em cima, com todos eles juntos, ninguém melhor do que ninguém, nenhuma religião melhor do que a outra. Talvez uma solução seja nos unir em nossas igualdades respeitando nossas diferenças. Eu sei que ainda existe racismos, machismos e preconceitos de ódio em geral. Eu sei que é um tanto utópico, eu sei que parece um sonho, mas hoje eu posso sonhar, antigamente nem isso era possível, hoje algumas utopias estão bem próximas de alguma realidade. Antigamente, talvez eu nem pudesse escrever meus sonhos e utopias, antigamente eu talvez nem estivesse vivo aos 36 anos. Eu sei que um culto ecumênico é relativamente comum, não para mim, e para muitos isso não é nada demais, a esses, eu peço perdão por ainda me encantar com o simples, a esses eu peço perdão por ainda me encantar com o mundo.

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